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quarta-feira, 7 de maio de 2014

A décima Cartaxada

Por Francisco Frassales Cartaxo 

Cartaxada é um encontro de um pedaço da família Cartaxo. Uma espécie de con-venção, envolvendo uma pequena fração familiar. Pequena em face da numerosa descendência do português Joaquim Antônio do Couto.  Aí pelos meados do século 19 ele aportou ao Recife e veio pelos caminhos das águas até a Ribeira do Rio do Peixe. Na verdade, pouco se sabe da vida além-mar de Joaquim Antônio do Couto. Todavia, uma coisa é certa: ele nasceu na vila do Cartaxo, então um lugarejo quase perdido no mapa de Portugal, próximo à cidade de Santarém. Aqui no sertão, em suas andanças de vendedor ambulante, de tanto citar sua terra natal, fregueses e amigos passaram a tratá-lo por Cartaxo. Lá vem Joaquim, do Cartaxo, diziam. Chegou o Cartaxo!
Joaquim não teve dúvida, incorporou, formalmente, mais um sobrenome: Cartaxo. Com isso, impregnou no nome - Joaquim Antônio do Couto Cartaxo - a nostalgia de sua longínqua vila portuguesa. Assim nasceu a família Cartaxo. E começou a crescer quando ele casou com Ana de Albuquerque, recebendo como dote (léguas de terra?) do pai de Ana, o desbravador Luiz Gomes de Albuquerque. Após enviuvar, contraiu novas núpcias com outra Ana, a Ana Josefa de Jesus (filha de Serafim Gomes de Albuquerque e Joana Lins de Albuquerque), neta do mesmo Luiz Gomes de Albuquerque. Desses dois casamentos nasceram 14 filhos: 2 do primeiro e 12 do segundo. Essa gente cresceu e foi se espalhou pelo Brasil, de modo que onde houver um Cartaxo, lá está na origem o sangue da Ribeira do Rio do Peixe! No Brasil, só existe uma família Cartaxo.
A Cartaxada, porém, só abarca um pedacinho dessa imensa árvore genealógica: o galho brotado do casamento de Cristiano Cartaxo Rolim com a cearense, de Várzea Alegre, Isabel Sales de Brito ou Isabel Sales Cartaxo. Que parentesco tem Cristiano com o português Joaquim Antônio do Couto Cartaxo? Cristiano é bisneto. Sua mãe, Ana Antônio do Couto Cartaxo (Mãe Nanzinha) era filha do primogênito do português, de nome José Antônio do Couto Cartaxo. Em resumo: o português Joaquim Antônio gerou José Antônio, que gerou Ana Antônia (Mãe Nanzinha), que gerou Cristiano. Do casamento com Isabel, em 1921, Cristiano deixou 12 filhos. Hoje somos mais de 150 descendentes vivos, incluindo genros e noras, de quatro gerações. Isto responde a esta pergunta-queixa:
- Eu também sou Cartaxo, por que não fui convidada para a Cartaxada?
Reitero o que disse antes, porque a confraternização é exclusiva dos descendentes de Cristiano e Isabel. E são muitos. Residem em várias cidades do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Bahia, São Paulo. E até na Alemanha!
Como teve início a Cartaxada? Espalhados por este mundão de Deus, muitos primos e primas, tios e sobrinhas e tias e sobrinhos sequer se conheciam. Para falar a verdade, alguns nem sabiam da existência de outros... Vendo as fotos da comemoração em Cajazeiras (1989), dos 85 anos da avó Isabel, o neto Marcelo Cartaxo começou a bolar com primos e primas forma de reunir a família, novamente. Após muita articulação, deu-se o encontro no Icaraí, em 1999. Assim nasceu a Cartaxada. Incluindo a festa dos 85 anos de dona Isabel como a Cartaxada pioneira, de lá até aqui, são dez encontros de muita confraternização familiar, cultura e lazer, realizados mais ou menos de dois em dois anos. Houve Cartaxada no Icaraí, Brejo das Freiras, João Pessoa, Recife, Salvador, Natal, Fortaleza e Cajazeiras. 


sábado, 15 de março de 2014

Redes virtuais e eleição

Por Francisco Frassales Cartaxo
     Como sempre o carnaval deixou ressaca, um rastro de cansaço, alegria, recordações revividas em fotos, postadas quase ao vivo nas redes virtuais. Compartilhadas com os amigos. Ou simplesmente curtidas. Do carnaval restaram também amargas lembranças de acidentes, brigas e mortes. Ficaram suspiros de amores voláteis. Outros nem tão, é bem verdade. Nada que não se tenha visto e vivido em carnavais passados. Este ano, alguns candidatos ensaiaram passos de popularidade, sem graça, a mídia a mesclar folia e campanha eleitoral. Já, já a gente esquece.
De agora em diante a Copa do Mundo de Futebol ocupará enormes espaços, de fazer inveja ao Galo da Madrugada, gigantesca galinha a agasalhar gente e ações nada republicanas. Com isso, a mídia ativa os sentidos da população, aguça suas agruras diárias pela falta de transporte de qualidade, de saúde, segurança, educação. Um convite às ruas, mais que à própria torcida, para o protesto. A campanha eleitoral será mais curta. 2014 chega com uma novidade capaz de mexer com os parâmetros até agora adotados em estudos eleitorais, a começar pelas pesquisas de intenções de votos. Aliás, as redes sociais na internet já estão inundadas de mensagens de postulantes a cargos eletivos. Esta, sim, é grande novidade desta eleição.

    E esta novidade está no tamanho das redes, na sua abran- gência, na capacidade de disseminar infor- mação com cele- ridade, no seu uso generalizado, ao ponto de sedimentar o hábito em boa parte da população. Não só entre os jovens. Não pense o leitor que a onda virtual esbarra nas faixas etárias até os 30 anos, os “nativos digitais”. Vai além. A onda avança e atinge os velhos também. Pesquisa divulgada mês passado indica que as pessoas com mais de 50 anos, por exemplo, estão aderindo em massa ao Facebook, a rede social da moda. A adesão às redes pelos mais velhos tem crescido, hoje, muito mais rápido do que entre os jovens. Os filhos e netos continuam maioria nas redes, é notório, mas eles perdem terreno para pais e avôs. Estes cada vez mais ávidos de curtirem mecanismos modernos de comunicação. Esse fato produzirá efeitos na inclinação do eleitor. É provável que as redes virtuais entrem com força na disputa pela primazia dos instrumentos de informação na hora de definir e consolidar o voto. Sua capacidade de multiplicar rapidamente fatos e boatos pode alterar os esquemas tradicionais das disputas eleitorais no Brasil, anulando vantagens aparentes baseadas em formas tradicionais de exposição de candidatos. O guia eleitoral gratuito é um deles. Ainda é cedo para afirmar isto, mas há sinais no ar, ou melhor, no mundo da internet.

    Não quero com estas observações trocar conteúdo por forma. A força deve persistir com a natureza das propostas, a trajetória dos postulantes, a importância do apoio político etc. Mas é inegável que a haverá do lado da recepção pelo eleitor maior rigor avaliativo, muito mais do que em eleições anteriores. Mensagem balofa, vazia de conteúdo tende morrer no senso crítico dos internautas, na troca de impressões entre eles, a despeito das asneiras que circulam em abundância nas redes virtuais. 2014 será um teste interessante para aferir o peso das redes virtuais nas eleições. E a capacidade dos partidos em interagir com o eleitor em rede.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Hospital Universitário de Cajazeiras

Por Francisco Frassales Cartaxo
Para quem não conhecia o reitor Edilson Amorim, como este cronista, foi uma revelação ouvir sua fala na Audiência Pública. Sincero e espontâneo, ele confessou-se xiita no passado. Na campanha para vice-reitor, em 1999, com relatório do Bando Mundial debaixo do braço, a enxergar em linhas e entrelinhas a peste da privatização. Via então, no papelucho do BIRD, prova inconteste de conspiração internacional contra o Brasil e os trabalhadores. Ex-dirigente sindical, Edilson conhece muito bem os dois lados da mesa. Sua trajetória pessoal lhe deixa à vontade, portanto, para afirmar com autoridade que andar muito para a esquerda termina por levar o militante à direita. A terra é redonda e os extremos se encontram... Sabia lição de quem conhece Marx e viveu situações que o ajudam hoje a conduzir o processo de adesão da UFCG ao novo modelo de gestão hospitalar do governo Dilma. Um trunfo para nossa luta. Cajazeiras só precisa calçá-lo com o suporte política e popular. E esperar bom senso e realismo do Conselho Universitário da UFCG.
Na Audiência Pública do dia 28 na Câmara Municipal, sob a lúcida e firme coordenação de Alex Costa, houve 13 intervenções, além das falas inicial e final do reitor. Ao acompanhar o evento, a 600 quilômetros de distância, fiquei de olhos pregados na internet, ouvidos atentos. Foi um alento. Os argumentos usados pelo reitor são sólidos, convincentes. O histórico do conturbado encaminhamento do processo de adesão ao novo modelo, coincidindo com disputas eleitorais internas à UFCG, foram causas do insucesso político e formal de 2012. Agora não. Difícil repetir-se o erro anterior, salvo se os muito à esquerda quiserem produzir uma farsa... Quem sabe, para confirmar um popular axioma de Marx... Aos xiitas de hoje, Edilson lembrou palavras de outro cientista: “Não basta ler Marx, é preciso ouvir as ruas”. A Audiência foi um passo firme na mobilização da sociedade do Alto Piranhas. A luta será vitoriosa.
As 13 intervenções na Audiência comprovam, mais uma vez, que Cajazeiras é diferente. Briga, mas se une quando a causa exige. As entidades organizadas assumem agora o comando com a mesma firmeza de outras lutas. Afora um ou outra nostalgia de palanque, o que se ouviu na Audiência foram coisas sensatas. Peço permissão, todavia, aos meus amigos e autoridades que fizeram uso da palavra, para realçar a fala de uma mulher. A mim me impressionou a objetividade de Cláudia Dias (foto), prefeita de Monte Horebe e presidente da AMASP, aliás, a última a se manifestar. Com simplicidade ela disse que levará sua juventude e sua força a todos os municípios integrantes da AMASP, na busca de apoio de seus colegas prefeitos e dos vereadores. Cumprirá assim sua missão de autoridade. Logo em seguida, falou do papel do HU de Cajazeiras: no futuro não será preciso levar a Campina Grande ou João Pessoa um doente mais complicado, com o risco até de perder-se na viagem um ente querido. E findou sua intervenção com estas palavras: “Como mãe, eu quero assegurar um bom futuro para meu filho”. Pronto. Falou por todos sem fanfarronice.
O reitor Edilson Amorim deveria convocá-la para prestar depoimento como prefeita de cidade pequena, cidadã e mãe. E de presidente da entidade que congrega 15 municípios do Alto Piranhas. Deixem que ela, na singeleza de sua fala, confronte a objetividade de suas verdades com a verborreia xiita cheia de argumentos sacados de manuais ideológicos mal digeridos. E de corporativismo envelhecido a desprezar a população, a realidade e o futuro.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Nosso aeroporto e sua viabilidade

Em 2007, em artigo intitulado “Um aeroporto para o Sertão”, e publicado aqui nesse mesmo espaço, eu falava sobre a possibilidade da construção de um aeroporto entre as cidades de Sousa e Cajazeiras, sustentando meus argumentos na localização mais favorável e estratégica e economicamente – pelo empreendimento de uma única obra aeroportuária para todo o sertão paraibano. E sem explicitar, o artigo tinha motivação defensiva, pelo receio de que Sousa, mais populosa e por sediar mais órgãos públicos federais, partisse na frente e estruturasse seu aeroporto. Dessa forma, a vizinha cidade poderia ganhar a preferência de alguma companhia aérea, comprometendo a pretensão cajazeirense de polarizar o transporte aéreo de passageiros no sertão paraibano. Sete anos depois, e com nosso aeroporto já praticamente pronto, eu ainda conservo esse receio. Geograficamente, Sousa está mais bem localizada no sertão da Paraíba e seu raio de 80 km compreende mais habitantes e um maior numero de cidades paraibanas, nos vales dos rios Piranhas, do Peixe e até Piancó. Seu pequeno aeroporto já opera regularmente vôos de cargas (malotes bancários e dos correios), justamente por sua localização. 
 O maior custo no transporte aéreo é com o combustível, 50% deste, gasto na decolagem. Aterrissar ou decolar em um pequeno ou grande aeroporto tem praticamente o mesmo custo. Daí a questão crítica quanto às operações em aeroportos com baixa demanda. Num momento em que algumas empresas já acenam com a possibilidade de suspenderem vôos em algumas rotas consideradas não sustentáveis, a preocupação se volta para o nosso sonho que é a inclusão do Aeroporto Pedro Moreira nas rotas regionais e nacionais. Em uma atividade dolarizada em 55%, a nova paridade da moeda americana frente ao real elevou os custos do setor. E o que se vê no momento, são as companhias aéreas se adaptando ao novo cenário, reajustando o preço das passagens, diminuindo a oferta de assentos promocionais, e reavaliando a viabilidade econômica de algumas rotas. Isso pode ser mais um obstáculo para inclusão de Cajazeiras nas rotas aéreas regionais. 
 O argumento de que Cajazeiras já teve por 4 ou 5 anos, na década de 60, linhas regulares da Varig não vale como parâmetro. Primeiro, naquela época as cidades eram muito isoladas devido à ausência de estradas asfaltadas, justificando mais necessidade da ligação aérea com as capitais; Segundo, havia influência política e de empresários de duas multinacionais do setor algodoeiro com filiais em Cajazeiras; terceiro, as companhias estatais, não são referência, pois as mesmas operavam com subsídios e sob intervenção política. Empresas assim são pouco pragmáticas quanto à sustentabilidade econômica. Para elas, se uma rota superavitária cobrisse os custos de uma rota deficitária, estaria tudo bem. Já os executivos de uma empresa privada não pensam assim. Foi-se o tempo em que governos subsidiavam o transporte aéreo – até porque este era monopolizado pelo Estado. Hoje, o cenário é outro e os governos não parecem mais dispostos a subsidiarem, com dinheiro público, as rotas deficitárias. 
 Meu ceticismo sobre o assunto é baseado numa realidade mais austera, que permeia o segmento da aviação civil, e na localização de nossa cidade nos limites do estado, que muitos vêem como favorável, mas que na verdade é uma desvantagem. Também não tenho ilusões de que será o aeroporto que trará o desenvolvimento para Cajazeiras; mas sim, o desenvolvimento de Cajazeiras que atrairá as companhias aéreas para o nosso aeroporto. Nesse aspecto sou bem realista e não vejo com tanto otimismo a possibilidade da inclusão de nossa cidade nas rotas aéreas, regionais ou nacionais, no curto prazo.


Fonte: Blog Coisas de Cajazeiras de Christiano Moura


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Diocese de Cajazeiras e a UFCG

Por Francisco Frassales Cartaxo

   Seria bom que este ano alunos e professores do campus da UFCG coloquem seus conhecimentos a serviço da história da centenária diocese de Cajazeiras. Ali, ao lado das Casas Populares, há um centro de saber acadêmico, formado a expensas de recursos públicos, com professores capazes de mergulhar no passado e enxergar facetas difíceis de serem captadas por simples curiosos. Não se trata apenas de questão de conhecimento, do domínio de teorias ou de técnicas de investigação. Isto é pré-requisito. Impõe-se algo mais, por exemplo, a vontade de utilizar os fundamentos científicos, as ferramentas de pesquisas inerentes às ciências sociais, em particular à história, para apreender as peculiaridades locais, situando-as em contexto amplo, regional e nacional. Obras fundamentais para entender o Brasil estão cheias de citações de estudos específicos de caráter sub-regional e local, sem os quais a interpretação do mundo real se resumiria ao acúmulo de conhecimentos, muitas vezes, produzidos lá fora, sem o devido cuidado em operar a necessária redução sociológica.
   Espero que o campus tenha adquirido ultimamente mais abertura para as questões locais. Em 2006, quando recorri ao saber acadêmico de nossa Universidade em busca de luzes para clarear a história política de Cajazeiras, constatei existir certa má vontade com as coisas do sertão. É claro que encontrei boa vontade e apoio para troca de ideias com professores amigos. O foco do meu estudo era história política, do qual resultou modesta contribuição divulgada no livro “Do bico de pena à urna eletrônica”.  Mesmo sem calibre teórico, eu tentava incursão no patrimonialismo, desejoso de fornecer exemplos concretos de sua prática em Cajazeiras. Em contato com respeitado professor, situado no topo da carreira docente, doutor que é, fui surpreendido com sua concepção do papel da academia em lugares como Cajazeiras. Disse-me mais ou menos isto:
“Dessas coisas de política local eu não cuido. Minha função é outra, é transmitir aos alunos conceitos básicos, teóricos, princípios etc. E isso você pode ler nos meus textos preparados para os estudantes. Os textos estão disponíveis, ali.”
Disse enquanto apontava o dedo para a barraca da Xerox. Adquiri-os. Mais tarde mergulhei na leitura da sua apostilha. Na segunda página, não pude segurar o bocejo, tantas eram a citações entre aspas. Uma atrás da outra. Dezenas de conceitos de autores de todas as partes do mundo. Nada contra. Mas aquilo não me seduzia. Talvez comova o coitado do aluno, obrigado a fazer prova... Eu procurava algo mais simples, menos distante, um link entre o saber acadêmico e a realidade histórica local.
Ao recordar esse fato, penso que fui exigente, desfocado da rotina da academia. Enfim, devo ser um cara chato... O episódio, de sete anos atrás, provocou em mim a estranha sensação de que importa mais empurrar nos alunos, goela abaixo, o produto da assimilação de conhecimentos obtidos nos cursos de mestrado, doutorado, pós-doutorado, ministrados em grandes centros do saber acadêmico. E só. Aplicá-los à vida local seria tarefa subalterna? Confundida, talvez, no caso específico dos estudos de história política de Cajazeiras, com algo desprezível ou passível de contaminar a pureza do saber acadêmico. Espero estar enganado e que o centenário da diocese seja iluminado com as luzes do campus da UFCG.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Paixão e poesia

Por Francisco Frassales Cartaxo
    Há um século, as escaramuças religiosas e políticas entre Crato e Juazeiro assumiram dimensão estadual com repercussão nacional. Não é exagero. Em nome do padre Cícero, o deputado federal Floro Bartolomeu (foto), em conluio com o senador gaúcho Pinheiro Machado, chefão do Partido Republicano Conservador, rebelou-se contra o governo do Ceará. Coronéis, capangas, fanáticos e cangaceiros, comandados por Floro e abençoados pelo padre Cícero, apearam do poder o governador Franco Rabelo. Padre Cícero estava proibido de administrar alguns sacramentos, porque a Igreja considerou como falso o “milagre” da transformação da hóstia em sangue na boca da beata Maria de Araujo. Ele agarrou-se à “benção” que dava, diariamente, aos romeiros, da janela de sua casa.
Essa “benção” tornou-se então importante evento religioso. Religioso e político. Político? Exato. Ora, quando o conflito armado contra os rabelistas tomou corpo, padre Cícero passou a dar duas “bênçãos” por dia, tal a quantidade de gente em busca de proteção. E quem se envolvia na “guerra”, diretamente, ouvia estímulo especial. E isso não era pouca coisa. Romeiros viravam guerreiros. Guerreiros de Deus. Guerreiros do Padim Ciço, mais confiantes no manuseio da espingarda e do punhal, naquela “guerra santa”. Não que o padre do Juazeiro instigasse abertamente com palavras. Ao contrário, ele até ameaçava “quem roubasse, bebesse cachaça e desonrasse”. Tolice. Guerra é guerra...
Mas afinal, que tem isso a ver com paixão e poesia?
Tudo. José Joaquim de Brito, conhecido em Várzea Alegre como Zuza da Inácia, exercera, em governo adversário do padre Cícero, o cargo de delegado de polícia. Por isso, fez-se inimigo. Perseguido como muitos outros caririenses, Zuza da Inácia vendeu sua terras e outros bens, fazendeiro e comerciante que era, e veio de mala e cuia abrigar-se em São João do Rio do Peixe. Mais tarde, a família mudou-se para Cajazeiras a fim de facilitar os estudos dos sete filhos, rapazes e moças. Entre estas, uma jovem adolescente despertou o sentimento amoroso de um senhor circunspecto, bigode espesso, vasta cabeleira, farmacêutico formado no Rio de Janeiro, poeta e viúvo. Viúvo, ainda marcado pela morte precoce da jovem e bela esposa, sua prima.
Nessas circunstâncias, não lhe foi difícil encantar-se com a beleza daquela cearense de 16 anos que, diariamente, passava na calçada da sua farmácia. Na ida ao colégio e na volta. O poeta derramava em versos a paixão a enraizar-se no seu coração, povoando assim a viuvez solitária. Às escondidas, fez chegar às mãos da bem amada rimas transbordantes de amor. Um soneto por dia, durante muitos dias. Daria um livro.
Um dia decidiu. O viúvo, de 34 anos, decidiu. Amigo comum às duas famílias recebeu a missão de pedir a mão da menina em casamento. Teve sucesso, embora gerando certa frustração, pois os pais preferiam que a escolhida fosse a mais velha, então com 20 anos... Não. Não era Inácia. O viúvo queria Isabel. Aliás, só Isabel, a quem dedicara apaixonados versos. E assim, em 12 de setembro de 1921, casam Cristiano e Isabel. Ela no dia que completou 17 anos! Ele com o dobro da idade, exatos 34 anos.
Quase 20 anos depois eu nasci. Minha mãe nunca foi a Juazeiro agradecer a padre Cícero... E, coberta de razão, ela detestava Floro Bartolomeu.

PS – Aos leitores e leitoras desejo um 2014 de muita luz. Até na hora do voto.


sábado, 21 de dezembro de 2013

Aeroporto: desrespeito a Cajazeiras


Por Francisco Frassales Cartaxo
O governador Ricardo Coutinho está brincando com Cajazeiras. A ideia de construir um novo aeroporto partiu de gente séria, interessada em dotar a cidade de um equipamento fundamental ao crescimento da região do Alto Piranhas. Fundamental, sobretudo agora que Cajazeiras se firma como polo educacional, hoje com 30 cursos em cinco instituições de ensino superior. A ideia tomou corpo quando dois engenheiros e um professor universitário caíram em campo, literalmente, a procura de um local adequado para o aeroporto. O passo seguinte foi abordar o dono do terreno. Tiveram sorte. Num gesto de desprendimento o médico José Maria Moreira fez a doação de sua propriedade ao estado. Não agiu de brincadeira. Formalizou em cartório a escritura. Aliás, este foi o grande trunfo usado para amarrar a decisão do governador, José Maranhão, no ato mesmo da conversa, puxada por um grupo de empresários. Empresários sérios, nenhum deles dono de aeronave, com clara visão do papel estratégico do aeroporto para o desenvolvimento do Oeste paraibano e, claro, para seus próprios negócios.  

Clareza falta ao governo da Paraíba. A gestão passada construiu a pista e deu início ao terminal de passageiros. Mas deixou a obra inconclusa. Ricardo Coutinho assegurou ao Movimento dos Amigos de Cajazeiras (MAC), na época da campanha, em 2010, e, já na qualidade de governador, que concluiria o aeroporto. E o fez também em entrevistas à mídia cajazeirense. Ricardo sempre demonstrou nessas ocasiões ter plena consciência da função econômica, social e política do aeroporto.
Passados três anos, no entanto, quase nada foi feito. Não encontro explicação para essa incúria. Caso o governo entenda não ser viável um aeroporto em Cajazeiras, então, convoque a sociedade para o debate. Governo moderno faz assim. Logo ele, Ricardo, que tanto preza, corretamente, o Orçamento Democrático. O governo não pode mostrar-se indiferente ao significado estratégico do aeroporto para a economia sertaneja. Um desrespeito a Cajazeiras. Ao longo de três anos, secretários de estado, dirigentes do DER, outros auxiliares menos qualificados e áulicos de Ricardo Coutinho reafirmaram de público a promessa de executar as obras complementares necessárias ao pleno funcionamento do aeroporto e à sua homologação. Não foi uma voz isolada. Nem duas nem três. Foram muitas. É bem verdade que só se pronunciavam quando havia cobrança. Enganaram a população. Trataram os cajazeirenses como um bando de mentecaptos. Mentiram. Até prazo estabeleceram! Mentiram sem a menor cerimônia. Nisso, os auxiliares de Ricardo foram competentes e ágeis... Falta pressa, todavia, para fazer uma cerca decente ou o balizamento noturno ou preparar as áreas de segurança de voos ou o pátio de estacionamento... Inacreditável. Isso acontece num governo que asfalta 400 km de rodovias! Um desrespeito a Cajazeiras.
Difícil imaginar que, no caso específico do aeroporto de Cajazeiras, Ricardo Coutinho vista a camisa do atraso. Gestor moderno, trabalhador incansável, muito bem avaliado entre os governadores do Brasil, causa estranheza o desprezo ao elementar princípio de priorizar a continuidade de obras públicas iniciadas e interrompidas. Um retrocesso. Volta ao passado, à velha forma de fazer política. Prática mesquinha que, aliás, jamais figurou no programa do Partido Socialista Brasileiro (PSB), o partido do governador.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Estudante: sujeito da história

Por Francisco Frassales Cartaxo

Meus caros estudantes, Caja- zeiras está mudan- do neste começo do século 21. Virou uma cidade de estudantes. Se no passado remoto foi iluminada pelo saber do padre Rolim, hoje é polo universitário e de ensino médio. Expressivo e di- 
versificado. Milhares de alunos, daqui e de fora, formam um contingente de peso, não só pelo número, mas sobretudo pela influência que exercem. Sua presença provoca alterações nos costumes, estimula as atividades econômicas ao ponto de induzir mudanças no padrão da construção civil. Os 10 mil alunos dos 40 cursos de graduação e de nível médio representam uma força com potencial para mudar o rumo da história.
  A maioria das pessoas ainda não se deu conta desse fato novo. Mas é bom prestar atenção. A movimen- tação de rua, sinto- nizada com as mobi- lizações nacionais, foi até agora insignificante frente ao potencial da juventude residente em Cajazeiras. Um contingente de origem geográfica, social, econômica, religiosa heterogênea na sua formação, mas homogêneo na propensão à mudança. E o que é mais significativo, para mobilizar-se não depende do beneplácito de nenhuma autoridade, de nenhum chefe. Não se sujeita ao poder. Nem a ninguém. Prova disso são as articulações que precederam os protestos de rua, as redes sociais usadas como ferramenta eficaz.
Cajazeiras consolida-se a cada ano como polo de ensino. Uma cidade de estudantes. Cheia de problemas. Dentro e fora das escolas. No século 19, um padre sábio abrigava no seu colégio poucas dúzias de internos, vindos de longe para receber saberes intelectuais capazes de levá-los à elite da sociedade. Hoje é diferente: a presença de milhares de jovens impacta a vida de Cajazeiras, interfere até na qualidade dos edifícios residenciais. Portanto, seus problemas deixaram de ser “assunto de família” ou meramente educacional. Assumem dimensão política, no sentido de exigir intervenções do poder público, destinadas a apoiar os núcleos de ensino e seus protagonistas: os estudantes.
   O poder público, apegado à velha política, não enxerga essa nova realidade. Se os governos - esta- duais e municipais - tivessem lucidez para compreender o significado dos fatos emergentes já teriam cuidado de muita coisa. Por exemplo: os acessos rodoviários diretos ao campus da UFCG, incluindo a Perimetral Norte; o transporte coletivo urbano decente e barato para todos, inclusive para os alunos de faculdades e colégios; conclusão do Aeroporto Regional; modernização do HRC, implantação de áreas de lazer etc. etc. Essas coisas, no entanto, passam ao largo das preocupações dos gestores, inclusive do Orçamento Democrático. É uma pena. Talvez, vejam nessas questões, “coisas de rico”, como classificaram a Perimetral Norte e o Aeroporto Pedro Moreira, já apelidado de “o interminável”... A propósito, o DER/PB está pavimentando 400 km de rodovias em 4 anos! Palmas!  Mas gasta mais de 30 meses para contratar o balizamento noturno do Aeroporto, para nivelar as faixas de escape da pista asfaltada de 1.600 metros! E a cerca de arame? Lembrem-se os do poder: o Aeroporto tem tudo a ver também com a melhoria do ensino no sertão porque vai facilitar o intercâmbio de professores, fator essencial para elevar a qualidade do ensino público e privado em Cajazeiras e Sousa. Só quem tem a visão rasteira de cágado não enxerga isso.
Meus caros estudantes, até aqui vocês são objeto das transformações vividas em Cajazeiras. Agora precisam assumir a condição de sujeito da história. Isso vocês sabem como fazer.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O Hospital Regional e a velha política

Por Francisco Frassales Cartaxo
O velho Hospital Regional de Cajazeiras, instalado nos meados do século 20, entra em crise. De novo. Como a memória é curta, passo a relembrar fatos recentes. Aliás, re-centíssimos. No início de 2009, portanto, apenas quatro anos atrás, tinha i-nício a gestão tripartite. Pa-ra quem esqueceu, gestão tripartite era o modelo compartilhado entre os três entes da federação: Município, Estado e União, esta representada pela UFCG. Essa forma de dirigir o Hospital foi naquela ocasião o melhor caminho para transformá-lo em efetivo núcleo de apoio ao ensino na área de saúde, sobretudo, o novo curso de medicina da federal. Para refrescar a memória, transcrevo a seguir trechos do artigo publicado no Gazeta do Alto Piranhas, em 3 julho de 2009.
Até agora, 100 dias sob a égide do novo modelo, muitas coisas aconteceram. O HRC, um dos maiores hospitais públicos da Paraíba, tem mais de 60 médicos e capacidade nominal para 150 leitos. Há quatro meses, porém, só havia cerca de 40 leitos disponíveis. Hoje já são 90. O almoxarifado estoca medicamentos para um mês. Adquiridos com decência. Antes, comprava-se às pressas. Nem sempre com decência. Estabeleceu-se escala de trabalho na UTI e fora dela. Escala disponível a quem desejar conhecê-la, aliás, entregue em mãos pelo diretor geral, Antônio Fernandes, aos secretários de saúde dos municípios da região do Alto Piranhas.”
Muitas coisas estão acontecendo. Boas para uns, ruins para outros. Por exemplo, eliminaram-se abusivas misturas do público com o privado num mesmo arco. Isso fere interesses. Algumas pessoas não se conformam em ver o HRC em mãos limpas e afastadas de manipulação político-eleitoral. Existem os que reagem às medidas saneadoras. Paciência. Esses poucos vão ter que aceitar a nova realidade, salvo se a sociedade cajazeirense der as costas a seu próprio futuro, agarrando-se a um passado que é prejudicial à maioria e à melhora da saúde da população e do ensino no sertão.”
“Nos últimos anos, seu funcionamento vinha sofrendo pesadas críticas, paradoxalmente, quando mais se investiu em modernização. Apesar dos fortes mecanismos oficiais de apoio à saúde pública, a realidade do dia-a-dia levou o HRC a perder credibilidade, de tal modo que pacientes fugiam dele e procuravam melhores alternativas de atendimento, embora mais distantes. Por quê? Em face da má gestão hospitalar, objeto de constantes reclamações na mídia local. E sussurradas à boca pequena. Falava-se, também com insistência, de conduta ética reprovável e de improbidade administrativa.”
“As mazelas do Hospital ficaram ainda mais expostas após a criação do curso de medicina na UFCG, mercê da necessidade de aproximá-lo do campus, integrando cada vez mais prestação de serviços hospitalares, exercício profissional e campo de estágios para os alunos dos atuais cursos de medicina e enfermagem.”
“Então o HRC está uma maravilha? A nova gestão resolve tudo? Nada disso. Trata-se apenas do começo da mudança. Para o conjunto da sociedade sertaneja não há solução melhor. Solução que precisa ter continuidade. E apoio. Forte e consciente.”
Tudo o que está entre as-pas, foi reflexão feita por mim há quatro anos, quando José Ma-ranhão governava a Paraíba. Apoio não faltou, inclusive da parte do Movimento dos Amigos de Ca-jazeiras - MAC, em especial, nas crises agudas vividas pelo Hos-pital. E no governo de Ricardo Coutinho? Disso falarei na próxima semana. 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A força do povo e a velha política

Por Francisco Frassales Cartaxo
A força do povo vem das ruas. No dia 20 de junho eu vi multidão de jo-vens nas ruas de Cajazeiras. Em cima de um carro de som um rapaz e uma moça animavam quem chegava à concentração na Praça das Oiticicas. Era o começo de um dia que ficará na história. Na mesma hora, em centenas de cidades brasileiras, milhares de pessoas também demonstravam sua indignação com o descaso de gestores públicos, incapazes de dar solução a problemas cruciais do dia a dia da população. Rápidos para construir arenas de futebol, eles são lentos, quase parando, para concluir obras como a da transposição das águas do São Francisco.
- Quem é esse menino?
Perguntei apontando o ga-roto do carro de som. Ninguém soube me infor-mar. E a guria? Um professor u-niversitário me disse que o ra-paz era aluno do curso de história na UFCG. Poucos sabiam seu nome. Nem precisava. Faz parte do novo tempo. O protesto, por sinal, marca outra diferença fantástica em confronto com as tradicionais passeatas da política velha. Nestas um profissional do microfone deixa escorrer pelo canto da boca um líquido pegajoso, a esgoelar-se mais ou menos assim: Registramos a presença do deputado fulano, do ex-prefeito sicrano, da prefeita beltrana, dos vereadores etc. etc. Nada disso se ouviu. Nem poderia. Eles, os políticos carcomidos, estão noutra. Por isso, os babões também não apareceram na caminhada do protesto. Os poucos, contavam-se nos dedos da mão... Em seu lugar eu vi cidadãos. Cidadãs e cidadãos jovens, aplaudidos com entusiasmo por onde passavam.
Universitários e secundaristas formavam uma corrente de 3.000 jovens. Tão jovens que, no dia seguinte, um radialista afeito à velha política do pastoril (cordão azul versus cordão encarnado) desdenhou: “eu quero ver é na hora do voto”. O colega berrou sua descrença: “não vai resolver nada”. Coitados! Não enxergam além do próprio nariz. Aliás, em perfeita sintonia com seus chefes... Com os chefes do pastoril partidário. Distantes do sentimento das ruas, eles, os chefes e asseclas, bem que tentaram enviesar o movimento generoso dos jovens cajazeirenses com palavras de ordem da velha política. Quiseram apequenar a mobilização infiltrando questões do quintal político de Cajazeiras. Quebraram a cara. O coletivo os barrou.  
A polícia só acompanha respeitosamente
O Brasil vive um mo-mento político novo. Para onde vamos? Nin-guém sabe ain-da. Mas o povo nas ruas já produziu efei-tos concretos. Forçou a baixa nas tarifas dos transportes pú-blicos. A presidente Dilma, meio zonza com o barulho das ruas, alinhavou às pressas um pacote, tão às pressas que 48 horas depois voltou atrás. O Congresso Nacional derrubou a PEC 37, tornou hediondo o crime de corrupção. O STF mandou para a cadeia um deputado corrupto, coisa que não fazia há décadas. Tudo isso em poucos dias! O medo obra milagre. Então, está tudo dominado? Nem pensar. Além dos vândalos, muitos espinhos encontrará o povo nas ruas.
A luta vai prosseguir cada vez mais organizada, com pauta centrada em grandes eixos. O combate à corrupção e à impunidade. O eixo da melhoria na qualidade dos serviços públicos: transporte coletivo, ensino público e prestação de saúde. O eixo da boa gestão pública, punindo administradores públicos desonestos e relapsos. O eixo do basta de violência! O eixo da reforma política visando aperfeiçoar os mecanismos eleitorais e partidários, e faça cumprir com rigor a Lei da Ficha Limpa.
Eis aí uma amostra da pauta de ação. A velha política que se cuide. Não se brinca com o povo quando ele descobre sua força. 

domingo, 12 de maio de 2013

A infância e as suas marcas...

por José Fernandes Almeida Neto
Tempo que dá tempo, crescimento que não é imaginado, tudo se concentra no brincar, no faz de conta de ser grande. Oh tempo que não volta mais, tempo que não deixou tempo, nem para o tempo dizer:
- Tchau momentos de alegria, tristeza, dúvida, mo- mentos imortais para as mentes férteis, inspiradas nas lendas urbanas, nas estórias e contos.
Oh! Quando olho já sou grande demais, não posso mais pensar no que ouvia os outros dizerem, agora tem de não mais escutar. Devo ser grande, tenho de ser grande de verdade; re-alizar e vencer os obstáculos túrbidos da vida hodierna, a esses momentos quando tem- po tenho, lembro o passado que não mais me pertence, pertence a uma senhora chamada história que jamais me devolve, apenas me envolve no lembrar...
Confuso! Desesperado, fico a fazer interrogações do que posso fazer para mudar o mundo. Logo me vem uma resposta bem clara: - comece mudando a você mesmo. Rápido levanto-me da lacuna paralela da mente que confuso mais me faz ser; e com essa voz gravada na mente, passo a passo vou seguindo, sem cessar nenhum segundo. Do relógio não tão seguro que me faz ser seu escravo, relógio obediente ao tempo, que sempre diz: que eu não devo perder nenhum momento. Se fosse de obedecer todo segundo, tudo, tudo mesmo seria diferente, perfeito, mas, não é. Somos donos do que praticamos, somos filhos dos outros, que também são filhos dos outros, em uma escola inimaginável. Ah tempo bom! Ah tempo que não volta! E se voltar, não aduz contigo os perigos que já enfrentei nesse tempo que nomeei de bom.

sábado, 4 de maio de 2013

Conviver com a seca


Por Francisco Frassales Cartaxo
O leitor pode estranhar que eu venha falar de seca quando as chuvas voltam a cair.  Fiz de propósito. Desde menino, ouço falar que a seca se combate no inverno. Combater Como se fosse uma guerra. Por um triz a expressão “combate” ou “luta” não figurou no nome do primeiro órgão federal criado, em 1909, com a finalidade específica de atacar seus efeitos: Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas – IFOCS. Antes disso, dom Pedro II já fizera sua demagogia imperial, enganando os nordestinos ao proclamar que venderia o último brilhante de sua coroa, mas não deixaria um cearense morrer de fome. Conversa fiada. Aliás, conversa fiada, frases de efeito, fotos demagógicas nunca faltaram no Brasil.

No passado, o uso político da seca era escancarado. Abriam-se “frentes de emergência” para dar trabalho de qualquer jeito. Assim começada a sacanagem. Incluíam na folha de pagamento, além dos “cassacos”, amigos, parentes e aderentes dos políticos. Um horror! Em 1958, ano de seca e eleição, muitos jovens estudantes engajados em campanha eleitoral transformaram-se em “cassacos” de meia e sapato para, sem dar um dia de serviço, serem pagos pelo governo do grande presidente JK, do velho PSD. Naquela época, os “cassacos” faziam-se na enxada, na picareta, na pá, no carro de mão nas frentes de serviço, sob o sol e poeira. Salvavam-se no trabalho duro e morriam no “barracão”, que fornecia mercadoria de primeira necessidade a preços escorchantes, mancomunados com os chefes políticos governistas.
Na Paraíba, José Américo de Almeida, candidato ao senado em 1958, foi derrotado por Rui Carneiro, correligionário de Juscelino no PSD. Logo quem! Zé Américo que, em outras secas (1932, 1952) fora aclamado como o “salvador” do Nordeste na condição de ministro da Viação e Obras Públicas, responsável pelas grandes frentes de emergência que deram ao Nordeste parte do sua infraestrutura viária, dos açudes e outras obras ajustadas à ideia, então prevalecente, de combater os efeitos da seca através da acumulação d’água.  

As cenas traumáticas do passado mudaram de feição. As levas de retirantes, magros, desnutridos, a morrer de fome e sede na beira das estradas cederam lugar às carcaças de animais. Sumiram também as frentes de trabalho, destinadas a dar de comer aos famintos, reforçar a infraestrutura econômica e permitir a sobrevivência das famílias rurais a fim de manter em operação o sistema produtivo algodão/pecuária/subsistência. Aquele sistema acabou. Nem moradores rurais existem mais, migraram para a ponta de rua. O programa bolsa-família e outros mecanismos de transferências sociais de renda substituíram as frentes ocasionais de emergência. Agora, o socorro virou rotina.

As ações devem ser permanentes e não apenas na ocorrência da seca. E mais, importa ao homem conviver com a natureza na vasta região semiárida nordestina. Conviver com a natureza, respeitando-a, e tirando proveito do saber popular acumulado ao longo de muitos anos de vivência no trato com o meio ambiente, com as plantas, os rios e córregos, com os bichos do mato, com o regime de chuvas, aplicando tecnologias ajustadas às suas potencialidades. Corrigindo os erros do passado. Com o indispensável adjutório, é claro, do conhecimento científico adquirido nos órgãos técnicos oficiais e das inúmeras entidades postas a serviço das comunidades rurais, que disseminam o saber e instigam a consciência das pessoas. Este é um caminho longo, penoso, paciente. Não dá voto fácil. Por isso, políticos oportunistas preferem poses demagógicas em fotos tiradas junto às carcaças de animais mortos na calçada de agência bancária.   

terça-feira, 5 de março de 2013

Preguilesma no Aeroporto

Por Francisco Frassales Cartaxo
Quando estive em Cajazeiras, semana passada, dei um pulo no inconcluso aeroporto Professor Pedro Moreira e, surpreso, des- cobri um estranho animal ar- rastando-se ao pé da cerca de arame. De mansinho, me aproximei e com muito esforço pude identificá-lo: um preguilesma. Não se trata daquele “monstruoso inseto de ventre abaulado cheio de pernas” que espantou o metamorfoseado Gregor Samsa, o incrível personagem de Franz Kafka. Nada disso. Preguilesma é bicho mesmo daqui, vive no aeroporto regional de Cajazeiras, seu lugar preferido.
Preguilesma é um mistura de preguiça e lesma. Um monstro. Um monstro que reúne a lentidão do mamífero à incapacidade de andar sem deixar o rastro do molusco as- queroso. Dois anos da tartaruga voadora, criada no governo Ma- ranhão, somados aos 26 meses da gestão Ricardo Coutinho fizeram nascer o preguilesma. Culpa do DER? Não. O DER, que apenas supervisiona aquele empreendimento, é ágil, muito ágil até, na construção de estradas, haja vista a execução do ousado programa rodoviário. O superintendente Carlos Pereira se esforça para entregar 400 km de pavimentação até o final de 2014. E ainda quebra tabus antigos, como pavimentar o trecho São José de Piranhas-Carrapateira, nos aproximando da histórica Santa Fé. O esforço não é em vão. A mídia noticia, com monótona frequência, a adesão de prefeitos ao projeto de reeleição do governador. E não adianta negar a tática, aliás, mais inteligente e eficaz do que promessas ao vento, tão ao gosto de lideranças políticas carcomidas.

Se é assim com estradas, por que o preguilesma mora no aeroporto?
Porque o governo é míope. Ora, se essa mio- pia fosse problema para oftalmologista, era fácil resolver: doutor Sabino Filho dava um jeito na hora... Infelizmente, a doença é muito mais grave. Basta lembrar pa- lavras de um irrequieto rapaz, arvorado em por- ta-voz de Ricardo, ao enquadrar o aeroporto como obra para gente rica. Coitado, não enxerga sequer os votos das centenas de famílias do sertão da Paraíba que usam o aeroporto de Juazeiro, para vir do Sudeste, de Brasília todos os anos... Lembro também o deslize de outro correligionário de Ricardo, prestativo, trabalhador, inteligente, mas que embarcou em onda burra, deixando escapar não ser o aeroporto prioridade para o governo do PSB! Que é isso, companheiro?
Eu disse aos colegas do MAC que erramos ao encaminhar, via DER, os problemas do aeroporto, ao invés de fazê-lo junto à Secretaria de Turismo e Desenvolvimento. Quem deve conduzir as ações dirigidas para desenvolver o estado é o secretário Renato Feliciano. Pelo menos ele tem obrigação funcional e política de tratar dessa questão. Não o fez até agora. Nem mesmo tentou incluir Cajazeiras no programa do governo Dilma de estímulo à interiorização de linhas aéreas regionais. Portanto, o MAC errou. O erro maior, todavia, é do governo estadual, ao dar tratamento secundário a um importante equipamento destinado a impulsionar o desenvolvimento do sertão paraibano. Não apenas de Cajazeiras, como enxerga Efraim Filho.
  Disseram-me que o secretário Fe- liciano esteve em Cajazeiras, porém, não se ouviu dele uma palavra acerca do aeroporto! Os companheiros da im- prensa, por sua vez, nada lhe per- guntaram sobre o tema, talvez, ini- bidos pelos gritos do trêfego porta-voz de Ricardo na região do Rio do Peixe, para quem o aeroporto é coisa de rico... Enquanto isso, o preguilesma cochila junto à cerca do aeroporto, deitado na babugem nascida com as chuvas de fevereiro...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

As selas de Joaquim de Brito

Por Francisco Frassales Cartaxo
Quando os cabras chegaram à casa grande da fazenda de meu avô para prendê-lo, foram recebidos por sua mulher que lhes informou ter seu marido viajado. Desconfiados, os homens de Floro Bartolomeu con- feriram com os olhos o que havia na varanda, no corredor e na sala. A- trevidos, percorreram outras de- pendências do imóvel, até mesmo recantos íntimos, a procura do dono da casa. Nada encontraram. Viram, porém, escanchadas numa forquilha do terraço, duas selas de montaria e, apontando para elas, perguntaram à minha avó:
- Como é que a senhora diz que seu marido está viajando, se as duas selas estão penduradas ali?
- Quem tem duas selas não pode ter três ou quatro?
Assim, altaneira, respondeu dona Joana Sales de Brito, minha avó, com a segurança de quem não temia enfrentar jagunços e fanáticos do padre Cícero Romão Batista, travestidos de policiais de fato, em perseguição aos que não rezavam pela cartilha política do chefe Floro Bartolomeu. Essas milícias eventuais andavam à caça de pessoas que, mesmo sem envolvimento partidário ostensivo, como era o caso de meu avô, não demonstravam entusiasmo pelos objetivos e pelas táticas da luta política, seguidos pelos homens mobilizados para derrubar o então governador do Ceará, coronel Franco Rabelo.
O temido Floro
Bartomeu
Minha avó mentiu. De fato, seu marido não estava em casa, mas também não viajara. Encontrava-se escondido num capão de mato, próximo a sua casa, graças ao alerta de uma pessoa amiga que o avisara da aproximação dos capangas de Floro Bartolomeu (foto), a tempo de sair às pressas para evitar os maus tratos e a prisão, frustrando assim o intento de seus perseguidores. Joaquim Sales de Brito, meu avô materno, era proprietário rural e negociante em terras do Cariri, onde nasceu, e desenvolvia suas atividades de agricultor e comerciante, afeito a longas andanças de Lavras da Mangabeira a Fortaleza, a transportar mercadorias em lombo de burro, numa época em que os trilhos da estrada de ferro ainda estavam distantes da região sul do Ceará. Depois da chamada Guerra do Crato e Juazeiro, (1914) sua vida virou um inferno, tantas eram as investidas contra ele e muitas outras famílias que não lhe restou senão migrar para a Paraíba, por ele eleita como sua nova terra. Aliás, não foram poucas as pessoas a adotar o mesmo caminho, como registra a história naquele começo do século 20, a exemplo da família Gonçalves, que se instalou, provisoriamente, em Cajazeiras, onde nasceu uma criança, que mais tarde se tornou político com atuação no Cariri e chegou a se eleger senador da República, como representante cearense: Wilson Gonçalves.
Essa história, a resposta atrevida de minha avó materna, foi passada de boca a boca, gerações seguidas. Eu escutei inúmeras vezes a narrativa feita por minha mãe, dona Isabel, como lembrança de menina, ela que tinha menos de 10 anos de idade no dia em que os cabras de Floro Bartolomeu tentaram prender meu avô. Minha tia Inácia, por ser a filha velha de Joaquim de Brito, era a encarregada de levar-lhe comida e água. E só ela sabia de seu esconderijo, por instintiva medida de segurança.
Esta crônica tem o sentido de homenagear à família de minha mãe e todas as pessoas vítimas das perseguições políticas, de mistura com senhas fanáticas que prosperaram numa época em  que se tornava difícil separar capangas, cabras, cangaceiros, romeiros e fanáticos.